sábado, 15 de dezembro de 2007

Dois momentos de estranheza:

Atravessava a praça da figueira a caminho da festa do cinemalfa. pareceu-me reconhecer um dos três vultos plantados no semáforo à frente do mundo do sapato. o barbudo era o R., e lá estava a T. e uma outra tipa que não conhecia e fiquei sem conhecer. cumprimentos que outrora eram efusivos são agora comedidos, não há há quanto tempo, não há que saudades. perguntam-me como vou. hesito entre contar tudo ou ficar-me por meias palavras. fico entre uma coisa e outra. falo do curso de interpretação e da hipótese de voltar para dto. o R. olha-me entre a descrença e o avaliativo, como se pensasse e calasse que "este gajo está cada vez pior". a conversa arrasta-se até ao ponto em que os três se piram abruptamente para ir jantar. não há votos de encontro para breve, não há vai aparecendo, não há vê se telefonas, não há nada, só pressa. fica um gostinho acre na boca. não gosto de ficar com a ideia que as pessoas se afastam de mim por alguma razão que desconheço. as relações morrem e a minha atitude é sempre de vestir o luto ao mesmo tempo que tento reanimar o morto.

Entrei no jamaica por volta das duas. senti que estava a andar 12 ou 13 anos para trás sem sair deste tempo de aqui e agora. a mesma música da minha adolescência, gente à minha volta a representar a sua alegria de viver como uma homenagem aos bons velhos tempos enquanto davam largas aos apetites alcoólicos e sexuais. a maioria na casa dos 30, gente da minha geração. a sensação de estranheza vem mesmo daí. é que eu raramente me dou com gente mais velha que eu e que me anteceda imediatamente na pirâmide ou lá o que é etária. Tenho poucos amigos com a minha idade. sou com frequência o mais velho de grupos de copos ou jantaradas ou cafezinhos a dois mas isso não se nota grande coisa, nem em termos físicos nem intelectuais (diga-se em abono da verdade). daí, creio, a estranheza. acho que finalmente levei um banho de multidão, da minha multidão. era mesmo ali que eu estaria se andasse à caça de relações episódicas na noite e trabalhasse de dia em algum desses sítios onde trabalham as pessoas que andaram comigo na escola secundária.

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