e de repente volto a respirar. já não sei porquê, o facto é que deixei de me utilizar como instrumento de tortura de mim próprio. pelo menos tem sido assim nos últimos dias.
agora passo a escrever em registo naif.
tem sido muito bom conversar com o psi. não me diz nada que eu não soubesse já mas é interessante como conseguimos reordenar as coisas que foram fazendo a minha vida de forma a dar um sentido diferente ao conjunto. também mudamos o peso das coisas no conjunto. e acabo por conseguir descentrar-me para outro ponto no espaço imaginário e daí olhar-me e ver-me diferente. por outro lado, se quiser dar um exemplo concreto acho que não consigo. talvez a maneira como me sugeriu que tenho passado a vida toda sem me empenhar a fundo em nada. não porque seja inferior ou tenha um potencial não preenchido por culpa minha mas porque de alguma forma não me entrego a nada que me dê prazer. Ou melhor, que não me consigo apaixonar pelo mundo e por mim nele. que não consigo pôr o máximo do que sou no mínimo que faça porque de alguma forma não consigo ver e sentir o prazer que as coisas me podem dar. nunca vivo nada de forma apaixonada. faço opções porque sim, porque os outros acham que sim, porque eu acho que os outros me acham melhor se eu fizer determinada coisa, porque acho que podem ser bem pagas, porque acho que são socialmente bem vistas, coisas deste género. mas nunca essa decisão se apoia numa vontade interior de entrega com paixão a algo que gosto mesmo de fazer, que me dá prazer e sobre a qual queira construir algo para mim. também foi ficando claro que isso torna qualquer facto da minha vida muito mais difícil para mim, que tudo é feito com muita insegurança e falta de empenho, que talvez isso explique por que tudo se torna a prazo numa prisão, num convite à fuga ou num motivo de infelicidade.
depois este panorama duplica-se noutros planos da vida. um deles é o da sexualidade e afectos. foi disto que falamos na última sessão. refiz a história da redescoberta do meu interesse por pessoas do mesmo sexo. como sempre vivi enclausurado no meu medo de agir em consonância com as minhas pulsões. ou seja, como acabei por ser incapaz de, também aqui, me "apaixonar" pelas opções que fazia, pelas coisas que queria sentir. como deixei a culpa e o medo tomar conta de mim e aí se foi constituindo um terreno fértil para a insatisfação...e infelicidade. também ficou claro como ainda não aceito isto. não me aceito ainda. tenho medo e estou inseguro de mim e das situações em que isto se pode manifestar socialmente. mas ao mesmo tempo saber isto e poder olhar para isto de frente já me dá um sentido de equilíbrio que raramente tive. parece que vou tapando um buraco cá dentro, preenchendo os espaços. sei pelo menos o que não quero. sei onde não pôr a minha atenção, onde não descobrir fontes de infelicidade e insatisfação. sei que não me devo torturar por não sentir plenamente, fisica e emocionalmente, interesse por pessoas do sexo feminino. é assim e isso basta-me. sai um peso de cima, saio de uma prisão. não é bem a ideia de prisão que melhor encaixa aqui...é a ideia de um limite, uma fronteira que não podia atravessar e me confinava a um território em que não me sentia à vontade. dito isto, parece que o grande trabalho ao qual meter mãos à obra é descobrir o meu lugar numa nebulosa qualquer a que chamam a homossexualidade. encontrar um espaço em que me sinta bem e em que aqueles que me conhecem desde sempre se sintam bem comigo. é portanto necessário que as coisas mudem sem mudarem nada. acho que estou progressivamente a gostar mais de mim. é muito bom sentir isto. mesmo que amanhã volte a cair na lama já é bom estar aqui a encenar um princípio de ordem na minha existência.
finalmente deixei por momentos de sentir a ansiedade que sentia com o curso. não sei se isto vai continuar, é provável que não porque se aproxima a primeira avaliação. mas sei hoje e aceito que só me posso forçar a fazer uma coisa que não gosto até certo limite. e que há mais vida para além dos objectivos mais ou menos lunáticos que em determinada altura me imponho. e que se outros são melhores do que eu isso não deve servir para achar que sou uma merda. de facto não sou uma merda, mesmo que às vezes esteja convencido disso.
