segunda-feira, 1 de setembro de 2008

não é que os meus dias sejam preenchidos com a questão da definição da orientação sexual. umas vezes penso que a questão está sanada, outras vezes penso que não, tenho dúvidas, hesito em modelar os comportamentos em função dessa definição prévia. umas vezes acho que o que é, é, e não pode ser de outra forma. outras vezes sinto que algo me afasta dessa identificação ou respondo a estímulos que indicam outra orientação. e nos períodos de equilíbrio acho que a questão está mais que esgotada porque a definição nem é assim tão importante. o importante é viver, experimentar, provar e tirar conclusões, provisórias ou definitivas, dessa experiência. creio que a dificuldade maior está aqui: sair do casulo e assumir que o corpo tem necessidade de se exprimir (pelo sexo, pelos afectos, etc) numa relação, ou melhor, num relacionamento que envolva outr@ corpo, outra forma de sentir e viver.

pois bem. o problema é que o medo misturado com a minha própria homofobia é paralisante. hoje mesmo, no período de algumas horas criaram-se três situações distintas que me confrontam com tudo isto.

1. vou no autocarro a caminho do aeroporto e observo na paragem um rapaz que imediatamente me interessa. o tipo entra, avança pelo corredor e senta-se por acaso ao meu lado. a partir daí, até ao fim da viagem, passo o tempo sensibilizado pela presença dele. observo sem olhar, nem sequer pelo canto do olho. sinto os seus gestos a virar as páginas do livro que está a ler. penso no que fazer com as pernas que nem sequer se tocam. vou-me interrogando acerca das razões que me levam a fazer de conta que nada se passa. a viagem acaba, sai cada um para seu lado e eu volto a terreno seguro.

2. na viagem de volta entram dois gajos e sentam-se de frente para mim. de vez em quando trocam algumas palavras em italiano, não identifico o sotaque. faço de conta que não os vejo. mas sinto-lhes a presença como a de dois vulcões a escorrer lava. percebo que me olham vagamente, um, o outro, outra vez o um. um cruza a perna. já na paragem, antes de entrarmos, tinha ficado com a certeza algo incerta que eram membros do sindicato. depois da perna cruzada e do olhar cruzado deixo de ter dúvidas. no entanto, evito ao máximo denunciar-me, denunciar esse impulso idiota que me corre no sangue. saem no técnico, eu deixo-me ir e saio na seguinte, não sem antes lhes tirar as medidas de soslaio. subo em direcção à cantina e voltamos a cruzar-nos na alameda. desvio-me apressadamente para não ter que os encarar outra vez. que pena.

3. já na ajuda volto a encontrar a e.. vem bonita, não nos vemos há quase um mês. nasce uma ternura e um estremecimento que me pede sempre para ir mais além e que estou permanentemente a refrear em nome de uma amizade já longa, de uma amizade a prolongar, de uma indecisão sobre o que sou, do medo que sinto de me meter em algo desconhecido, i.e., arriscar uma erupção de vontade que me faça perder a completa autonomia para um quotidiano que passe a incluir dois. tem sido quase sempre assim com ela. quero algo mais mas ao mesmo tempo não quero. não sei o que desejo, muito menos o que não desejo. queria abraçá-la, cheirá-la, acariciá-la, fazê-la sentir-se bem. mas não quero ir para a cama com ela nem quero criar situações menos claras nesse campo. seria injusto da minha parte.

uma coisa é certa: sinto-me demasiado só para levar uma vida sem questionamentos.

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