olhar outra vez os edifícios cinzentos, manchados, velhinhos de 40 anos de mau cimento e arquitectura j. pimenta. como a disposição de objectos numa paisagem arranca pedaços de passado cá de dentro para quase voltar a viver o que ficou lá atrás.
o lamento íntimo pelo abate dos arbustos só passou quando percebi que os arbustos de ontem são afinal árvores com 20 metros de altura. tenho 32 anos e já posso medir em metros de madeira e cheiro a resina os anos que cá passei.
mais à frente olhei para cima e percebi que o meu pai não estava lá, à janela, onde por vezes assomava durante o recreio da tarde. era depois da sesta que se seguia ao almoço. olhei para cima para vê-lo pôr roupa a secar no estendal ou a acenar para os meus 5 anos a partir daquele meio centímetro quadrado, no décimo andar. a inexprimível alegria era ter um amor incondicional por aquele homem careca de barbas, era olhar aquele gesto largo com o braço direito e saber-me instantaneamente amado.
o páteo onde aprendi a fazer corridas com pneus, a árvore raquítica que já não é e o baloiço que já não existe. a pedra gigantesca, o trabalho de hércules que foi virar aquela pedra para observar as centenas de bichos-de-conta, cinzentos, castanhos, grandes, médios e os filhos. maravilha.
e vou perguntando se as memórias são algo que guardamos ou algo que perdemos.

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