quinta-feira, 29 de outubro de 2009

foi bom voltar ao subúrbio no recato de um domingo cheio de ruas desertas.
olhar outra vez os edifícios cinzentos, manchados, velhinhos de 40 anos de mau cimento e arquitectura j. pimenta. como a disposição de objectos numa paisagem arranca pedaços de passado cá de dentro para quase voltar a viver o que ficou lá atrás.

o lamento íntimo pelo abate dos arbustos só passou quando percebi que os arbustos de ontem são afinal árvores com 20 metros de altura. tenho 32 anos e já posso medir em metros de madeira e cheiro a resina os anos que cá passei.

mais à frente olhei para cima e percebi que o meu pai não estava lá, à janela, onde por vezes assomava durante o recreio da tarde. era depois da sesta que se seguia ao almoço. olhei para cima para vê-lo pôr roupa a secar no estendal ou a acenar para os meus 5 anos a partir daquele meio centímetro quadrado, no décimo andar. a inexprimível alegria era ter um amor incondicional por aquele homem careca de barbas, era olhar aquele gesto largo com o braço direito e saber-me instantaneamente amado.

o páteo onde aprendi a fazer corridas com pneus, a árvore raquítica que já não é e o baloiço que já não existe. a pedra gigantesca, o trabalho de hércules que foi virar aquela pedra para observar as centenas de bichos-de-conta, cinzentos, castanhos, grandes, médios e os filhos. maravilha.

e vou perguntando se as memórias são algo que guardamos ou algo que perdemos.

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