e, com os diabos, se eu sou bom nisso!
a coisa intersecta-se com outras. depois de um fim-de-semana de exposição pública, de afirmação colectiva e individual com a causa identitária, dou por mim a ouvir um olá por trás da orelha murmurado com um sorriso. era o p.c.r. acompanhado de dois amigos, simpático como sempre. porque sou especialista em meter-me em jaulas e representar o papel do animal recluso, esbocei um constrangido olá e ofereci a mão para o cumprimento da praxe. no segundo exacto em que o fiz já estava a arrepender-me de tanta frieza. por que é que não "arrisquei" os dois beijos, também eles da praxe, mas muito mais adequados? fácil, porque eu nunca "arrisco", nem sequer quando não há nada de arriscado no que faço. ainda antes de o filme chegar continuou a tortura: meto conversa? falo-lhe de quê? do ex-namorado? da manif de ontem? do filme que vamos ver? e por que é que estás assim, nervoso sem perceber porquê? é bastante clara a razão: continuas com vergonha de sentir assim. continuas com vergonha de assumir uma identidade qualquer. sob a capa da recusa ideológica das identidades, está a recusa emocional de explorar os limites da sensibilidade. está o armário, a jaula, esta tortura filha-da-puta cheia de culpa que eu já tinha prometido abandonar, espatifar, reduzir ao tamanho da formiga e espetar-lhe a seguir com o pé em cima. por isso me ericei todo ante a possibilidade de dar dois beijos na cara ao p.c.r.
depois veio o filme dar-me chaves para analisar a minha vida. e que belo filme. talvez demasiado bruce weber para o meu gosto mas, em todo o caso, com bom gosto.

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