continuo a tentar perceber-me. hoje pensei na minha infância. na maneira como fui aprendendo a manipular-me para corresponder ao molde social. na maneira como fui aprendendo a lidar com o medo de ser o que pensava ser e sentir o que pensava sentir. começou cedo, a consciência do errado. já aqui o escrevi uma vez. se não erro, e quero crer que não, tudo começou quando intui que não podia dizer a ninguém a falta que sentia do h. éramos amigos, tanto quanto se pode ser amigo de alguém aos 5 ou 6 anos. para ser mais concreto, ele era filho de uma empregada da loja gerida pelo meu pai. por isso passávamos lá manhãs, tardes, dias inteiros a arranjar brincadeiras por entre prateleiras cheias de garrafões de vinho, papel higiénico, sacos de arroz e mais que se pudesse encontrar num armazém de supermercado. éramos tão pequenos que as imagens na minha memória ainda estão cheias de corredores sem fim, escuros, ladeados de paredes insondáveis e labirintos intermináveis. já sei, divago, dr. vou tentar ser mais objectivo.
bom, cheguei a um momento em que senti a falta do h. porquê? percebi que as aulas iam começar, ou fiquei doente e não pude voltar ao supermercado, já não sei. o que sei é que tinha criado com aquela criança uma ligação emocional e carnal que, uma vez quebrada, me lançou num sofrimento de novo tipo. ia dizer que ele não teria sentido o mesmo, mas isso é totalmente irrelevante e resulta mais da minha necessidade de perceber se o que sentia era único ou tinha eco no outro lado. mas só mais tarde (pouco, mas mais tarde) isto foi tema de monólogo interior. no momento da separação ficou um vazio. e nos dias, meses, anos seguintes, sedimentou-se o silêncio público sobre essa parte da minha vida. eu sabia, desde sempre soube, que não podia comentar o que sentia com mais ninguém. e nunca o fiz.
temos a cabeça cheia de sabedorias sobre a vida das crianças. julgamos saber que as crianças são seres assexuados. no fundo, queremos esquecer o que fomos. eu descobri de forma involuntária um prazer indeterminado com origem numa estimulação genital algures entre os 6 e os 7 anos. ainda me recordo como o fazia, enroscando-me com as pernas nas barras de ferro do parque infantil, ali mesmo onde os adultos viam apenas um instrumento de ginástica simiesca. fazia desvios de percurso propositados para ter orgasmos no parque infantil. depois isso passou. esqueci-me do que isso era até começar a masturbar-me, com 11 anos. o parque infantil... mas, de alguma maneira, sabia que não podia falar disso a ninguém. que era um assunto meu, e era meu porque de alguma forma eu sabia que, mais uma vez, os outros só teriam para oferecer o que eu não queria: recriminações e chacota. forjou-se assim mais um espaço do não dito na esperança ingénua e, talvez, involuntária, que o que não é dito, morre.
não morreu. as memórias voltam. dou um salto de dois anos e vou encontrar-me em moçambique. no início, recordo-me como os comentários das amigas dos meus pais à minha beleza me deixavam inchado e cheio de vontade de fazer-me mais bonito ainda para elas. não sei de onde vinha essa vontade, se dos filmes que via, se de uma destreza inata para descobrir em mim os meios de agradar. mas elas não eram assim tão omnipresentes como agora pode ficar nestas linhas. a verdade é que eu não tinha nem sentia que precisasse de ter um referente de masculinidade para modelar os meus comportamentos. refiro-me aqui à masculinidade como ela é entendida na análise social, como forma cultural (e política) de definição de género, como formatação de desempenho social contraposto ao feminino etc. talvez por isso adorasse arquear o lombo para espetar as nádegas, entesourar as pernas uma na outra, andar com a palma da mão virada para baixo, enrolar os meus caracóis alourados com os dedos, e me espantasse (nos dois sentidos) a vontade de conflito físico detectada nas outras crianças. em moçambique, a sexualidade não desapareceu. também não continuou a ser o que era. lá, terei percebido lá que não apenas devia preservar-me de expor uma parte já vista como íntima como devia, ainda, para estar à altura do que se esperava de mim, que sentisse atracção sexual por miúdas. e, de facto, sentia-a. mas também a sentia por miúdos, se a ocasião se apresentasse.
a este propósito, lembro-me agora de outro episódio. o meu irmão tem menos três anos que eu. em moçambique, por esta altura, estava a ter as mesmas experiências que eu tivera com o h. três anos antes. mas ele tinha-as com miúdas. e eu via e percebia essa diferença. comecei lentamente a encontrar nessa diferença um eu que não encaixava no único molde existente, o molde da heterossexualidade. e era por sabê-lo, por ter já a noção completa do que era censurado e condenado pelos outros, que passei a fechar-me cada vez mais dentro de mim neste campo. quando a oportunidade para experimentar se apresentava, o reflexo imediato passou a ser deitar mão à máscara para identificar-me com o que eu sabia que os outros esperavam que eu fosse. por isso me protegi de mim e evitei os contactos que poderia ter tido com miúdos nessa altura. e também por isso nunca tive a destreza e a confiança de alguns outros para fazer o que podia ter feito com miúdas. no primeiro caso, a reacção invariável era de fuga, apesar de os comportamentos masculinos proporcionarem ocasiões de sobra para a experiência sexual e eu saber que queria tê-las. no segundo caso, a reacção era de timidez avassaladora, e as normas do desempenho afectivo-sexual colocavam do lado masculino o poder do interesse e da iniciativa. que eu não conseguia ter, apesar de querer.
era um barco à deriva entre dois mundos, embora só eu o soubesse.

2 comentários:
Já li este texto há algum tempo e não me sinto bem se não deixar aqui um comentário. Algo que diga o quanto me arrepiei de recordar também a minha infância. Os medos, os traumas, as dúvidas... muita coisa que pensava que serem exclusivos meus.
acho que nunca são, sócrates. o importante é dar-lhes a volta, certo?
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