quarta-feira, 12 de maio de 2010

não sei porquê falava-se de teatro, se não me engano. ou então era ele que estudava teatro. sim, ele estudava teatro. sentados no murinho que separava a cantina do alcatrão. bebíamos o nem por isso tão horroroso café francês, num compasso de espera antes das aulas da tarde. se não era de teatro que falávamos, talvez fosse outra coisa qualquer. sei que éramos pelo menos três. a e., ele e eu. talvez mais alguém. talvez só nós. a razão não interessa. o importante é que acabámos a discuti-los. recordo-me de abordar o tema de um ponto de vista absolutamente exterior. de falar deles com uma superioridade ingénua, quase criminosa. que os respeitava, mas achava estranho o que faziam, os comportamentos. que não percebia como se podia...

queria continuar a descrever o que disse mas é difícil. sei que o tema era relativamente inócuo para a e. mas não para ele. e lembro-me, isso com uma definição assustadora, de o ouvir comentar que eu estava muito agarrado a uma visão do sul da europa, enquanto transparecia uma máscara de amargura. contida amargura, não fosse ele austríaco. lembro-me de mo ter dito. que ele era. e de eu insistir no erro, no comentário agressor, como se nada fosse, com a confiança estúpida e justificada de quem sabe estar apaixonado. e eu estava, pela m.

sei que, desde essa conversa, algo mudou e não voltámos a ter as mesmas tardes despreocupadas ao sol, de copo de café na mão. hoje não me reconheço naquele eu. olho para aquele al e vejo alguém que procurava a honestidade possível em si e nos outros e agir como se a sua razão pudesse transformar-se em lei universal, como diria o velho kant num dos seus imperativos categóricos. estava a falar para um deles sem sequer perceber a dimensão do erro. talvez um dia o encontre por aí e possa pedir-lhe desculpa. enquanto isso não acontece, tento perdoar-me, na certeza que em seis anos qualquer coisa aprendi.

Sem comentários: