quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

meu querido g.

soube hoje que nunca lerás esta carta. se bem te recordas, tínhamos adiado para as férias de verão o reencontro. adiei a resposta ao teu convite, como faço muito, como sempre fiz e continuarei a fazer (porque não sou como tu).

recuperei esse convite e apeteceu-me responder-lhe. mas não vou fazê-lo para uma caixa virtual que mais ninguém lerá até ser apagada. respondo aqui, porque sim, nesta língua que não é a tua.

as férias passaram e já não iremos a argentario cumprir o destino de piratas da beleza. um dia explicaste-me quem tinha sido mansart, numa daquelas estórias com muito pouca história que gostavas de espalhar de vez em quando, como a testar os limites do crédulo deleite de quem te ouvia. mansart, na verdade, não interessa. importa mais que o tivesses feito num cubículo de umas águas furtadas enquanto ias mandando sapatadas nas centenas de baratas que partilhavam contigo o suor das noites de canícula. nessa noite bebemos (devemos ter bebido a alguém, já não me recordo) e cantaste as canções que te eram queridas. acreditas que penso em ti sempre que as assobio, essas canções?

contigo vi os túmulos dos reis de França, contigo inventei à luz das velas a história de jean e jeanne, numa noite de trovoada em que a cidade das luzes deixou de o ser. recordas-te? contigo, tive as notas mais altas do curso de italiano que nunca fiz (davas sempre oito e um sonoro bravo!, eras um professor fácil…). contigo dancei tango e fiz pasta, mergulhei no mediterrâneo e almocei na maria. dançamos nas vindimas e nas catacumbas, bebemos o café intragável da cantina e o café fresco das manhãs lúgubres da residência. dissemos mal dos governos e dos governados. não sei se alguma vez dissemos bem de alguma coisa mas, conhecendo-te como conheço, tenho de admitir que sim. e tantos outros estilhaços de vida. lembro-me de olhar para ti e ver o corto.

tudo isto não passa de uma tentativa canhestra de te dizer que és importante. que estes e outros factos são nossos, de nós que os vivemos contigo. todos sabemos que o mundo não sente a tua falta, mas nós sim.

não sei como nem porquê. talvez isso seja o que menos importa agora. nenhuma explicação pode explicar o que não podia ter acontecido.

olha, meu querido g., nunca to disse mas vou aproveitar este cantinho para te confessar uma coisa: tu és para mim o espírito limpo, generoso e delicado que eu não consigo ser.

ainda quero acreditar que um destes dias nos encontramos no canal ou no jardim para tomar uma cerveja. ou para que me contes mais uma daquelas estórias hilariantes com muito pouca história. quem sabe, talvez naquela praia na toscana? vai pensando nisso!

je t’embrasse

á.

(28/10/2010)

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