a facilidade com que se reproduz a ideologia de quem manda, contra os próprios interesses, é uma curiosa confirmação do darwinismo social que nos governa a partir de dentro.
a maioria dirigida não tem os instrumentos de libertação porque acredita que não pode tê-los. foi doutrinada para abdicar do poder de mandar na sua vida coletiva.
um exemplo entre tantos, que é tão próprio deste país, porque radica na sua história recente: a revolução de 1974-1975.
a politica mediática, a política do sistema educativo, a ideologia que se instalou no senso comum, a política da historiografia dominante, todas elas, entrelaçadas e mutuamente alimentadas, decidiram arrumar com os revolucionários de todos os matizes na categoria dos ingénuos. faça-se um inquérito e quantifiquem-se as respostas - a "ilusão" revolucionária aí aparecerá em todo o esplendor das ideias feitas, a ingenuidade ou o voluntarismo inconsequente dos revolucionários como representação ideológica de um presente completamente desarmado.
não. é preciso dizer não, sempre e em todas as circunstâncias. é preciso dizer que os revolucionários fizeram prova de uma destreza política e intelectual sem paralelo em qualquer movimento social posterior. dos ocupantes de terras e apartamentos até aos sindicalistas e militantes de partidos, eles sabiam onde estavam os inimigos, do mais próximo ao mais distante, e combateram-nos de peito aberto, sem esconder ao que vinham, com clareza de propósitos. criaram realidades outras nas suas vidas e nas vidas de todos, resgataram pedaços de poder à minoria dominante e colocaram-nos na esfera da maioria, para servir a dignidade dos muitos.
quase 40 anos passados sobre o momento mais digno da história de portugal, que melhor testemunho da derrota inscrita no quotidiano senão o facto de apenas o partido comunista reivindicar a herança (parcial) dos revolucionários de 1974-1975?
este país que prefere esquecer ou remeter tudo para a ingenuidade dos outros, já perdeu.
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