Passo os dias com isto a latejar cá dentro.
Há cerca de dois anos e meio a roda começou a mover-se. Já não sei o que primeiro a fez perceber que, sendo roda, tinha sido feita para rodar.
(Há muitos anos houve Os Juncos Silvestres. Mas isso foi há muitos anos. Tinha quê? 17, 18 anos? Vejo hoje que devia ter desconfiado com mais persistência. Infelizmente, sempre quis ser mais ingénuo do que sou.)
Houve o T. Aparentemente não aconteceu nada. Mas se calhar foi por ele que pela primeira vez desde há não sei quando se insinuou cá dentro uma solicitude que devia tanto à amizade como a uma inconfessada vontade de ternura. O embrião mexeu-se.
Depois fui para Paris. Lembro-me da comoção provocada na sala escura com B.M. Na primeira vez em que me aparecia à frente uma história assim percebia que gostar de x ou y é igual. Ou devia ser. E começou a necessidade de falar do filme, disso, de qualquer coisa. Mas a cobardia ainda levava a palma. Tacteava qualquer afloramento do tema, disfarçava, como se o disfarçar para os outros tornasse o perigo mais domesticável para mim. Um gajo às voltas no seu armário.
Cheguei a Edimburgo. Já em Paris tinham começado a aparecer amig@s de amig@s. Eu olhava à volta e só via a absoluta normalidade de tudo isso. Em Edimburgo a coisa continuou. Longe de mim pensar que gostar de gaj@s fosse censurável. Mas ainda à procura de uma saída qualquer que me salvasse da coisa. Afinal até tinha estado loucamente apaixonado pela M. há pouco mais de 2 anos. Um dia entra um novo trabalhador na quinta. O J. acabava de chegar de um ano no sudeste asiático. Era muito bonito, aquele olhar azul marinho...o cabelo preto...muito simpático no seu sotaque cerrado das Lothians. Tão bonito que tinha namorada. Pela primeira vez aceitei considerar um gajo bonito e aceitar isso sem questionar. Mas caladinho.
Um outro dia ia pela rua ao sol com a I. Poder passear ao sol com 15 graus de temperatura! O paraíso para dois ibéricos com um inverno escocês às costas. De repente vejo em sentido contrário dois rapazes de uns 20 anos, como nós em ritmo de passeio, de mão dada. Dois rapazes de mão dada. Assim, como se alguém tivesse pegado em dois rapazes ao calhas da multidão mais heterossexual do mundo e lhes dissesse para andarem pelo passeio, ao sol, mão na mão. Passaram. Nem eu nem a I. comentamos, afinal era uma coisa que aceitávamos como normal e a normalidade raramente merece que se fale dela. E penso que intuíamos que abordar a situação um para outro seria como assumir uma mentalidade discriminatória, ou provinciana. Mas cá dentro, inexplicavelmente, rebentava uma alegria estúpida e uma vontade de falar, falar, falar. Dei por mim a continuar uma conversa em que perdera todo o interesse só para não ter de falar do que sentia. Uma alegria estúpida estupidamente calada.
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