Um gajo volta a perder-se quando pensava já se ter encontrado. A coisa vem de dois lados. Vem da pressão de ter que ser outro que não eu para ser alguém numa profissão que nem sequer conheço. E vem da pressão de querer ser mais eu na minha sexualidade e na demonstração dos meus afectos.
Falar em público é uma tortura. Encenar-me para os outros é exercício de auto-flagelação. Uma auto-consciência absurda de tudo à minha volta, sobretudo de mim mesmo. Aceito diminuir-me com a mesma facilidade com que acredito que não sou capaz. Tento servir de meio de transmissão às palavras dos outros. Mas tenho tantos obstáculos dentro de mim que as palavras dos outros se tornam irreconhecíveis para só ficar Al Capone com as suas inseguranças. E esqueço tudo. Gaguejo enquanto deixo a audiência suspensa das minhas reticências. Sempre fui assim. E temo que não seja capaz de mudar a tempo de tornar-me outra opção de vida.
Não sou capaz de mudar o que sou. Por isso sinto que vou estando pronto para aceitar-me assim: um gajo que gosta de outros gajos. Que ainda há um par de anos mandava moral barata sobre outros gajos como ele. Afinal qual era o medo? Qual é o medo quando o olhar foge para as ancas do gajo das jeans justas ou para o pescoço do moreno. Qual é o medo quando o olhar se perde a recortar uns lábios de uma boca, um olhar de um sorriso, uma voz grave pressentida?
O medo está cá dentro e só cá dentro. Em tudo. No fundo não sou mais que um animalzinho assustado a tentar fazer-se de forte.
Posso sempre viver sem a profissão. Azar, faz-se outras coisas. Mas já não estou disponível para mudar mais nada.
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