domingo, 23 de março de 2008

perguntou-me se eu estava preparado para refazer a minha vida. para alterar radicalmente a forma como me via daqui a 10, 20 anos. para aceitar o facto que provavelmente nunca terei filhos. para aceitar que a minha vida será provavelmente muito diferente do que pensei que fosse um dia. que será muito diferente do que sempre me disseram que seria.
perguntou-me se estava disposto a dizer aos meus pais que afinal provavelmente nunca seriam avós. cheguei-me à beira do precipício, olhei cá para dentro e disse "hoje, não". e ao dizer isto compreendi, talvez pela primeira vez de uma forma palpável a dimensão da mudança necessária. as pessoas têm expectativas, mesmo que não as verbalizem. quais são as expectativas dos meus pais? quais são as minhas expectativas?

perguntou-me se eu achava essa mudança difícil. ri-me e disse "claro que não". então perguntou-me se eu me sentia confortável com a perspectiva de uma situação de intimidade com uma pessoa do mesmo sexo. se eu me sentia confortável com tudo o que isso implicava - buscar o contexto em que isso pudesse acontecer, criar estratégias para provocar isso, enfrentar as reacções da outra parte (como reagir em caso de rejeição, como reagir em caso de aceitação...), como lidar com os aspectos físicos desse contacto (que são diferentes do contacto com uma pessoa de sexo diferente), como lidar com a questão emocional e a perspectiva de uma relação, especialmente tendo em conta que nunca me envolvi até hoje numa relação com ninguém, além de fogachos ocasionais. cheguei-me ao sopé da montanha, olhei para cima e disse "não consigo. sim, tem razão, é difícil".

se estava preparado para o dizer aos meus amigos. respondi-lhe que alguns já sabiam. perguntou-me o que me impedia de dizer aos outros. disse-lhe que tinha medo das reacções. então perguntou-me se, em face do que já lhe tinha dito - o nunca ter tido uma relação com uma rapariga que apresentasse aos outros como uma relação -, se eu pensava que os meus amigos nunca teriam considerado a hipótese de afinal eu não ser tão hetero como me/se assumia. esbugalhei os olhos, mudo, e abanei a cabeça "caramba, isto faz sentido". tenho medo dos outros. e tenha medo de mim, de finalmente criar uma situação de identificação com algo que me custa a reconhecer.

cada dia que passa vejo que essa mudança levará muito tempo. é parte importante do crescimento que preciso ter. saber o que quero, conhecer-me. superar inseguranças. ser mais inteiro.