quarta-feira, 23 de abril de 2008

e talvez a culpa seja da minha mãe! lembro-me desde que me lembro de alguma coisa dos sábios ensinamentos da rapariga. era tudo normal. quando al criança lhe perguntava como se faziam os bebés ela explicava tudo, dos livros escandinavos muito na moda nessa altura nos meios progressistas até ao recurso a auto-demonstrações anatómicas. devia ter uns 4-5 anos

(foi na altura da minha primeira e última "namorada". dávamos as mãos no dormitório do infantário enquanto os outros dormiam. recordo-a de franja. não éramos melhores amigos, éramos diferente. eu não brincava com ela. mas quando estavamos juntos era tudo harmonia. depois fui para a escola primária e acabou tudo),

tenho relâmpagos de imagens com essa situação, lembro-me do meu irmão quase bebé, toda a gente nua pela casa como num meco de apartamento a comparar pormenores, funções e potencialidades. uns tempos depois, quando pude comparar essa atitude com o mundo cá fora, fiquei confuso. por norma, calei. sabia o que os outros não sabiam e sabia que mais valia fechar a boca a ser mal compreendido. o mesmo se deve ter passado com o resto. mas aqui a memória é mais difusa.

(talvez tivesse 6 anos. sei que tive o meu primeiro grande desgosto de amor. com baba, ranho, lágrimas e uma dor de novo tipo, como um buraco negro no lugar do coração. hoje pergunto-me se não terá sido apenas a consequência de uma vontade não satisfeita, como tantas vezes reagem as crianças. mas depois lembro-me da cena de desespero como se fosse hoje. e como a fui recordando ao longo dos anos. sei que a partir desse dia nunca mais vi o h...minto, vi-o um dia quando tínhamos 12 anos. e lembro-me de me ter perguntado se ainda gostaria dele e ele de mim. e de estar pouco à vontade porque ainda passava na minha cabeça o filme que tínhamos feito às escondidas na casa de banho do supemercado...como passa ainda hoje)

algum dia devo ter perguntado à minha mãe se um homem podia fazer um bébe com outro homem. ou se, já que um homem podia gostar de outra mulher, se podia também gostar de outro homem. algum dia o terei feito porque me recordo da explicação como a fui recordando sempre ao longo dos anos: sim, há homens que gostam de homens. a maior parte das pessoas não gostam disso e são muito atrasadas e portugal é muito atrasado. eu, disse-me ela, nunca experimentei mas não teria problemas nenhuns em experimentar com outra mulher. e os homens que gostam de homens e as mulheres que gostam de mulheres são pessoas como as outras. devíamos estar em 81-82. seria possível viver mais longe da realidade?

(um dia chegou a casa com duas bonecas. recordo-o como se fosse ontem. lembro-me de a ouvir dizer que não via qualquer justificação para se impedir as crianças meninos de terem bonecas. que se as meninas podiam ter, os meninos também podiam. foi assim que um dia apareceu com um chorão (para o a.) e uma boneca loura com vestido branco para mim. sempre que havia visitas a coisa era motivo de comentários entre o deslumbrado, o curioso e o mudo. eu já compreendia que aquilo não era normal, nunca tinha visto e nunca vi depois enquanto cresci nenhum menino com uma boneca em público)