não suporto a dor. a doença física debilita-me muito a cabeça. gostei quando esta ideia se tornou clara. gosto de saber de que material sou feito mas gostaria de saber antecipar melhor.
por isso não sei se lhe devo atribuir a insatisfação dolorosa permanente que me acompanha. andei para cima e para baixo naquela avenida a tentar abrir-me para receber o calor. não consegui. não consegui afastar o incómodo e falta de entusiamo por estar a comemorar o que só consigo sentir como uma derrota pessoal. uma vida cheia de derrotas em todos os planos. o segredo está em não te concentrares na derrota mas no minuto seguinte. pois. só que a cada minuto que passa continuo a preparar a próxima derrota...porque não me apetece vencer. não tenho força para. mas continuo a jogar. e a fazer de conta. e a sair à rua. a odiar-me a cada minuto que passa. tenho dois meses de mentira pela frente a que não posso fugir.
a culpa manda demais. e o não saber para onde ir também.
subia e descia a avenida e o único reflexo possível era olhar para eles. mas nem isso aliviava a dor. pelo contrário, ainda lhe acrescentava desconforto. como se estivesse ali a prova, no dia da liberdade, que sou tudo menos livre. que não me permito nada, que vivo cheio de medo. cada olhar uma facada. cada vontade uma razão para querer desaparecer.
foda-se.
