quinta-feira, 31 de julho de 2008

quando estudava tinha por vezes a sensação que havia uma lógica superior que me escapava. e que me criava a sensação de não ser capaz de captar o que estava em causa em determinada proposição, em certo raciocínio mais ou menos complexo, em certas relações que se estabeleciam entre ideias. por exemplo: às vezes vinham à baila classificações de movimentos nas artes plásticas que se sobrepunham às classificações dos períodos literários (ou outras classificações, não importa). era, p.e., o realismo na pintura e o realismo na literatura. ora, o termo era o mesmo mas as realidades designadas eram diferentes. levou algum tempo (eu diria, anos) até perceber que o que estava em causa não eram as tais realidades, os movimentos com pessoas lá dentro a pintarem as suas telas ou a escreverem os seus livros mas o conceito, com o seu conteúdo e autonomia próprios. assim, o bruegel e o zola eram ditos realistas porque o seu trabalho/arte partilhava determinadas características (conceitos, símbolos, abstrações, nada mais que abstrações) que resultavam de um trabalho interpretativo de quem para eles olhava e lia e pensava sobre. quando finalmente percebi isto ganhei mais um centímetro de compreensão. e sinto que tem sido com coisas destas, pequenos passos deste tipo, que tenho andado entretido desde que cá ando. a tentar desenredar pequenos nós numa teia infinita que a cultura humana foi tecendo e na qual, afinal, nos puseram, nos encontramos e encontraremos todos até ao fim.

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