Guiomar torceu-se na cadeira, trespassada. Calou-se, porém. Por mais que fizesse não conseguia reencontrar o equilíbrio antigo, a serenidade que conhecera mesmo nos piores momentos. A sua personalidade deixara de se mover numa órbita privativa. Com fria objectividade de pessoa voluntariosa e senhora de si, examinava o passo que dera, sabia-se capaz de comandar as consequências do acto, mas ao cabo deste exame a amargura permanecia. Além da íntima desilusão, sentia-se irremediavelmente exposta, partilhada. Só agora compreendia como era duro, na verdade, que toda a forma de existir tivesse interferências alheias. De uma maneira ou doutra, sempre a perturbadora sombra de alguém nos acompanhava e nos roubava a paz da perfeita solidão. Cada ser humano à mercê dum gesto, de uma palavra, de uma carícia, ou até do silêncio doutros seres. Ninguém preservado dessa condenação de viver acompanhado de fantasmas, presentes ou ausentes...
Miguel Torga, Vindima
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
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