quinta-feira, 12 de agosto de 2010

a c. foi-se ontem.
pensar que durante muitos anos ela foi para mim a e., porque eu achava que a e. tinha cara de c., só por essa razão. nesse tempo em que não perguntamos as coisas que dizemos. só porque sim, porque sentimos o que falamos em voz alta sem filtros, sem intenções, sem passado e ainda sem futuro.
a c. foi-se e era para tudo e para sempre.
já não nos últimos dias. a puta da doença levou-a para cada vez mais longe. mas eu sabia e ela sabia que era assim. fazia parte dessa cadeia voluntária que nos forjámos. sei que a e. também.
agora estou aqui quase sem sentir a morte.
a morte. devia senti-la. é verdade que a c. já tinha deixado de ser a c. com letra maiúscula há uns meses. mas era ela. quando completou, quantos? já não sei. foi há uns meses. estivemos lá. disse-lhe que gostava muito dela. e ela disse-me o mesmo, já muito cansada, comida por dentro.
devia senti-la. mas sinto que não consigo senti-la. o que sinto é culpa. ou remorso. ou solidão. ou pena. ou tudo.
ela estava lá quando eu apareci há 33 anos. eu não estava quando ela se apagou.
rumarei ao norte para a despedida.
E pergunto-me se choro a morte da c. que vai ou o medo de ficar sozinho.
chorar assim não é fácil.

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