domingo, 24 de julho de 2011

tenho de escrever depressa porque cada segundo a mais é um deslize para o esquecimento.
esta noite sonhei muito. o peso das histórias foi tal que não podia ficar mais tempo a sonhar novas histórias. já não aguentava mais.
recordo-me em especial de duas.
a primeira parece um argumento de filme de charlie kaufman.
eu, morto ou desaparecido na adolescência, é um dos pontos obscuros, estive em diálogo permanente com alguém não identificado, mas que a espaços era a minha mãe, procurando determinar o que tinha acontecido no dia do meu desaparecimento/morte. o cenário era uma casa com jardim, numa colina qualquer que não consegui identificar, em meio urbano. todo o sonho foi uma sucessão de tentativas para reconstruir essa manhã, que havia de conduzir, por volta do meio-dia, ao vazio da minha existência. a reconstrução dos factos atirava o sonho para uma tapeçaria de emoções e situações de origens várias, desde as minhas manhãs sozinho em maputo a estudar e ler, até às dimensões da casa, com uma decoração algo felliniana, as aparições fugazes da minha mãe, a presença pressentida do meu pai, a passagem marcante de um rapaz/homem objecto de uma adoração confessada por mim ao papel. era mesmo um papel, com alguns desenhos toscos e uma frase no final sobre o meu interesse nessa personagem. todo o sonho consistia num vai-e-vem entre as minhas perguntas, dirigidas a mim ou à minha mãe, e a visualização deste cenário, procurando determinar o que é que podia explicar a minha morte. teria sido o comentário no final da página, indiciando um amor culpável? teria eu simplesmente fugido e perdido a memória? haveria outra explicação?
gostei do sonho por me colocar numa posição angustiosa e nostálgica, como as que recorrentemente tive quando crescia. por me fazer personagem de uma história de contornos trágicos, que é uma coisa que eu sempre gostei. e por me levar de volta a uma fase pré-adolescente de que quase nunca me lembro.

a noite de sonhos terminou com um sleep in de amigos e amigas não identificados, éramos três ou quatro na mesma cama. este sonho até se podia chamar "make out with max minghella". com toda a gente a dormir, eis que dou por mim com o rapaz, alguns toques tímidos primeiro a percebermos ambos o que aí podia vir, depois muita ternura nas mãos e os beijos, que são momentos perfeitos de comunhão. eis então que o rapaz sai da cama, vai fazer não sei o quê à biblioteca (sim, era uma casa com biblioteca), sigo-o após alguns momentos. encontro-o na escuridão a desconversar com um assunto fútil e percebo que afinal o que parecia poder ser já não é. e assim terminou, com um sabor agri-doce, uma agitada noite no outro lado da consciência.
se o além fosse este estado de rêverie inconsciente em permanência, não me importava nada.

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