quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Sou? Não sou? Sei lá se sou. Serei? E se não for? E se for apesar de por vezes pensar que não sou? Por que é tão importante saber? Mas será tão importante saber se sou alguma coisa?

É tão mais fácil com as gajas. Afinal são mais de 15 anos de treinos. Poucos treinos e sem grande convicção mas mesmo assim... É uma vida toda de aulas teóricas... O público sempre a aplaudir e pedir mais...

Sempre que olho para um gajo com olhar mais significativo assalta-me um medo misturado com reprovação, a roçar a vergonha. Não a vergonha envergonhada, ingénua, pura. Não. Esta é uma vergonha cheia de auto-censura e de desdém. "Devias ter vergonha", é o que me digo quando quero tirar as medidas a outro e não tiro. Às vezes olho. Pelo canto do olho, de frente mas aparentando desinteresse, de relance... E ao mesmo tempo sei que isto é uma atitude desprezível. Que assim não vale a pena. A desonestidade mata-me por dentro. Mas por que é que custa tanto aceitar a imagem no espelho e oferecê-la aos outros?

É incrível mas é verdade: sinto-me incomparavelmente mais confortável a olhar para uma gaja, até de forma insinuante, do que para um gajo. Sei que com a gaja estou em terreno conhecido. Sei que posso estar à vontade porque é isso que se espera de mim. E sei que não tenho verdadeiro interesse. Estou protegido por todos os lados. Com um gajo estou em campo aberto e não sei para onde me virar. Não estou à vontade porque "sei" que não se espera isso de mim (eu não espero isso de mim). E sei que há verdadeiro interesse (haverá?). Estou desprotegido por todos os lados. Assim vou construindo a hipocrisia de uma vida todos os dias. Não para os outros, amigos, família, colegas. Isso é fácil, já vão sabendo o que se passa. O mais difícil acontece cá dentro. Enquanto não acontecer vai acontecendo.

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