não há vontade que me salve de não conseguir ler. não consigo concentrar-me. quero viver e o tempo não é elástico. tempo de leitura é tempo roubado à vida. por vezes consigo, associo as frases, ligo os parágrafos e a coisa até vai fazendo sentido. mas depois surge a dúvida impertinente: isto não tem interesse nenhum, devias ter coisas melhores nas mãos. ou então surge a dúvida utilitarista: isto nunca servirá para te dar de comer, devias estar a ler qualquer coisa que te desse um diploma. e assim, quase sem dar por isso, vou perdendo o prazer de ler.
por isso acabo por olhar com inveja para quem se abandona à leitura enquanto consegue não pensar em mais nada. e recordo com inveja os momentos em que também fui capaz de o fazer. hoje tudo isto parece um luxo epicurista. se tenho uma ideia mais concreta do cânone e posso planear com alguma presciência o que aí viria, também deixei perder-se o gosto do desconhecido, a surpresa por trás da capa e um título. ando assim...
e nem a leitura de jornais me salva. fica sempre uma de duas: ou o desprezo por versões/leituras/criações da realidade tão chungas e evidentemente chungas que a nausea impede contacto continuado ou a sensação imperfeita que o segredo do mundo já o descobri e quase consigo prever/ver o mecanismo que guia o aparente múltiplo à minha volta, a luta dos homens pelos poderes, as pequenas afirmações sociais com que procuram dar sentido às suas vidas, as crenças a que uns ingenuamente aderem e outros interessadamente promovem...o espectáculo da vida humana na sua simplicidade.
porra, como gostava de ter paciência para o Quixote.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)

Sem comentários:
Enviar um comentário